sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Que Bom te Ver Viva (1989)

Na abertura da 9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos do Hemisfério Sul, assisti  em Curitiba, o filme QUE BOM TE VER VIVA, da cineasta Lucia Murat, que aborda a questão da tortura sob o ponto de vista de quem a ela sobreviveu.  

O filme começa com a frase do psicanalista judeu Bruno Bettelheim“A psicanálise explica porque se enlouquece, não porque se sobrevive”, dando a pista, logo no início, de que o roteiro tratará de histórias de superação. 

Porém, muito mais que isto, QUE BOM TE VER VIVA aborda, sobretudo, a questão da tortura feminina, e os dilemas corpo x sofrimento, vivenciados sob o prisma do ativismo ideológico de oito ex-presas políticas que foram cruelmente torturadas durante o regime militar. 

Os depoimentos e narrativas reais, perfeitamente orquestrados pela direção de Lucia, que os toma em plano 3 x 4, conferindo-lhes ainda maior dramaticidade, são intercalados com a narrativa  monóloga e teatral da atriz Irene Ravache, com falas que refletem memórias de uma mulher que também foi torturada e sobreviveu, talvez uma colcha de retalhos da somatória das oito personagens reais, talvez o alter ego da própria Lucia Murat.
Durante o filme, passamos a conhecer as histórias de mulheres que sofreram torturas na ditadura militar pós AI5, bem como a forma encontrada por elas para sobreviverem a tais horrores.

Maria do Carmo Brito, 44 anos, era ex-comandante da Vanguarda Popular Revolucionária. Maria Luiza Garcia Rosa, 37 anos, foi presa e torturada três vezes. Regina Toscano, 40 anos, epilética e grávida, torturada ao ser presa em 1970, perdeu o filho na cadeia. Não se deu por vencida, e posteriormente teve mais três filhos. Roselina Santa Cruz, 43 anos, presa e torturada, sofre com familiares “desaparecidos” durante a ditadura.
Criméia Schmidt de Almeida, 41 anos, perdeu o marido, o sogro e o cunhado na guerrilha do Araguaia. Na época enfermeira em São Paulo, teve um filho nascido na cadeia.  Jesse James, 37 anos, foi presa em 1970 durante tentativa de sequestro de avião.  Torturada durante três meses e presa por nove anos, também teve sua filha na cadeia. Com repercussão nacional, seu caso ganhou a atenção das forças da ditadura, que queria utilizá-la como exemplo, obrigando-a a renegar a esquerda na televisão, como, cogita-se, tenha feito um famoso ex-"guerrilheiro", envolvido na morte de Marighella, que já foi candidato a vice-presidente representando a direita.
Jesse James, ao contrário, não sucumbiu.
Grande homenageada da 9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos do Hemisfério Sul , a jornalista e cineasta Lúcia Murat foi agente do MR-8, tendo sido presa e torturada em 1971, quando permaneceu no cárcere por três anos e meio. 
A psicanálise e a racionalização estão presentes no filme do início ao fim, e, diz-se que QUE BOM TE VER VIVA é resultado de sete anos de terapia e foi realizado por Lucia para exorcizar os seus demônios.
De revistas íntimas a estupros coletivos, do uso de baratas e lagartixas à degradação de, menstruadas, serem penduradas de ponta-cabeça no pau de arara, as mulheres contam suas histórias reais, de terem sido expostas a fotos de seus ex-companheiros decapitados, apanharem até não mais aguentarem, a ponto de implorarem pela morte, ocasião em que ouviam do torturador: “eu não vou te matar. Eu te mato se eu quiser”, numa tradução da mais absoluta impotência e fragilidade em que se encontravam.
Todas elas têm em comum atribuírem sua sobrevivência a tais horrores em função do poder feminino de dar a luz e gerar uma nova vida. Em seus filhos e filhas, alguns paridos na prisão, encontraram a revanche da continuidade da vida.
A questão do feminino fica muito acentuada e a gente percebe, vendo o filme, que o Brasil avançou um pouco na questão de gênero, de 89 pra cá, quando observa o monólogo de Irene Ravache sempre se dirigindo ao público no masculino, apesar da essência de temática feminina e, mais ainda, quando percebe a extrema importância da maternidade como a grande forma de resgate de vida para aquelas mulheres.
Uma delas parece que nos pede desculpas, quando informa que a gravidez na prisão foi traumática e que, por isto, nunca mais conseguiu engravidar novamente.
Eu, que nunca fui presa ou torturada, e mesmo assim tive um filho só, senti o distanciamento entre o que parecia mais importante para as mulheres daquela época e como vivenciamos de forma diferente nossa condição feminina, uma geração depois, nós, as mulheres da geração seguinte.
Talvez por isso mesmo, porque não tenhamos sentido a necessidade de apalpar a continuidade de nossas vidas, muitas mulheres da geração seguinte, nem quiseram experimentar a maternidade, sem que, contudo, isto tenha representado uma escolha que colocasse em cheque sua condição feminina.
De qualquer forma, fechado o parênteses, esta não é exatamente a principal questão do filme, que trata mesmo é do estar aprisionada e livre, ao mesmo tempo, dentro de um corpo de mulher que sofreu os horrores degradantes da tortura e conseguiu ser mais forte do que tudo que rasgou, feriu, cortou, sangrou, dilacerou, mantendo-se a vida em toda a sua expressão, a despeito dos traumas que marcaram profundamente a alma dessas mulheres, que escolheram sobreviver.
QUE BOM TE VER VIVA é um filme real, sensível, dramático, que emociona e toca profundamente. 
Para mim foi difícil segurar o choro durante praticamente o filme todo. Difícil, emocionalmente, sermos colocadas de frente com a inexorável verdade de que o Brasil teve um período tão sombrio, onde os direitos civis foram suprimidos e os torturadores podiam atuar a vontade, sem ninguém que os pudesse impedir.
A catarse do filme está no fato de que, entretanto, no entanto e portanto, é possível sobreviver, pois a liberdade e a vida têm maior apelo à alma humana do que a tortura e a morte.
Vigiemos, pois.

(*na foto, esta blogueira que vos fala, Com a cineasta Lucia Murat, em Leituras da Ditadura.)
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