domingo, 27 de maio de 2012

Habemus Papam

HABEMUS PAPAM (2012), como um bom filme italiano, já traz implícito aquele tom jocoso e alegre usado para criticar as coisas como se tudo fosse risível. Sendo de Nanni Moretti, então, já se pode imaginar o tamanho da caricatura!

Não, não se trata de um filme religioso, Moretti é ateu e traz como contraponto a peça teatral A Gaivota, de Anton Tchékhov: peça que se pretendia comédia e virou drama através do personagem Treplev, um dramaturgo que fracassa ao tentar trazer seu trabalho reflexivo aos moralistas e conservadores dramaturgos russos.

Em Habemus Papam, Moretti nos apresenta a um conclave do Vaticano para eleger o novo papa após mostrar imagens de aqrquivo da morte de João Paulo II. Mesmo havendo favoritos de todas as partes do mundo, os cardeais, não conseguindo chegar a um consenso, elegem Melville, o personagem do delicioso Michel Picolli, só porque é o mais simpático e quietinho, entre os presentes.

E ai começa a sátira, pois o novo papa entra em profunda crise diante de sua eleição; sequer chega a ser apresentado na sacada, ao público e mídia do mundo inteiro que espera pelo nome do novo papa, porque quando foi chamado a isso, lá dentro, antes de vir a público, teve uma crise de histeria, chorando e se recusando a aparecer.

O que se desenrola é muito bonitinho, pois o novo papa queria mesmo é ser ator, e, a despeito dos esforços do Vaticano em estabilizá-lo emocionalmente, o velho foge à paisana em perambulação anônima pelas ruas de Roma, enquanto todos ficam presos no Vaticanos, para não anunciar a ninguém o que se esta a passar.


Antes da fuga do velho papa, o Vaticano, mesmo não admitindo a existência do inconsciente, porque não poderia coabitar com a alma (seriam 2 noções antagônicas), contrata um psicanalista vivido pelo próprio Moretti, para tentar controlar a crise. Imperdível a cena em que o psicanalista vai fazer a primeira sessão com o papa: todos os cardeais ao redor, não os deixarão a sós, desconfiados! E ainda não se pode perguntar ao papa nem sobre sua mãe, nem sobre sua infância, nem sobre seus sonhos; é hilário!

Quando o velho escapa do Vaticano, o psicanalista, preso com os cardeais até a resolução dos problemas, acaba realizando com eles uma espécie de terapia de grupo, através da organização de um jogo de vôlei, que expressa uma crítica inteligente de Moretti à questão geopolítica que já fora exposta, durante a eleição, no conclave.

Em meio a tudo isso, o papa acaba se hospedando no mesmo hotel que uma trupe teatral, e se mistura justamente com a interpretação de A Gaivota, de Tchékhov: se nos mostra, então, o papa que queria ser ator e não se deu conta do grande palco que é o Vaticano; a grande ausência do divino no cargo que se pretende o representante de Deus na terra; o quanto a igreja católica é fechada em si mesmo, a despeito da grande bondade e aparente ingenuidade de seus cardeais, que, no filme, são bem pouco inteligentes. 

Enfim, mais do que uma simples crítica à igreja católica, Moretti nos leva a olhar os homens em seus anseios humanos, não importa qual manto de "santidade" estejam usando.
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