domingo, 31 de março de 2013

IO E TE (2012)


Que grata surpresa ver um filme de Bernardo Bertolucci dez anos depois de seu último “Os Sonhadores”, belíssimo, que retratou Maio de 68!

Não me surpreendi com a temática: a adolescência. Os Sonhadores já tratou de anseios juvenis. Mas, aqui, em Io e Te, o genial Bertolucci cria todo um cenário apto a expressar anseios muito mais existenciais do que políticos.

Adaptação do romance de Niccolò Ammaniti, Io e Te tem como protagonista o jovem de 14 anos, Lorenzo, vivido pelo sensacional Jacopo Olmo Antinori.

Com seu rosto repleto de cravos e espinhas, seus despenteados e rebeldes cabelos encaracolados e uma expressão que mescla perfeitamente a inocência e um vago desejo de perdê-la, Lorenzo se nega a sair de seu narcisismo em estado puro e, eu diria, até, de seu autismo cultivado com devoção.

No começo do filme você estranha, mas até simpatiza com aquela figura esdrúxula, que desafia seu analista, criva o cara do pet shop de perguntas e tem diálogos edipianos com sua mãe. Mas quando ele sai de casa pronto para participar de um acampamento de esqui com a escola, todo equipado, e se tranca no porão da sua casa para passar uma semana com um estoque de coca-cola, algumas guloseimas e um formigueiro de vidro, você se pergunta “o que, diabos, esse mala sem alça vai aprontar enquanto deixa sua mãe pensando que ele está viajando com a escola?”.

Lorenzo se abriga da possibilidade de socialização, quer preservar sua inocência e se preservar da transição para a vida adulta. Quer manter intactas suas curiosidades infantis estando só, mas ao abrigo materno, pois ainda que não lhe saibam no porão, ele sabe que logo acima dele repousam seus pais.

Porém, como ninguém pode se abrigar da vida, sua meia irmã, Olivia, expulsa de casa pela mãe de Lorenzo, em quem (mais tarde se descobre) no passado atirara uma pedra quase a matando, aparece no porão para retirar dali sua caixa de pertences.

Jovem, ainda que mais velha que Lorenzo, a bela Olivia (Tea Falco), acaba abrigando-se com Lorenzo no porão, a quem se impõe por estar em forte crise de abstinência de heroína e não ter para onde ir. Traz, para “a caverna” a notícia de que existe um mundo real que não se compõe apenas pelas projeções oníricas aonde se abriga seu irmão.

Olivia é o arauto da passagem. E, em meio a uma cenografia bertolucciana, nós somos transportados também; primeiro a um intrépido momento de nossas vidas (e/ou das vidas de nossos filhos), onde relembramos com ternura nossa poderosa adolescência. Depois, à necessidade poética de que a vida seja real.

Lorenzo nos conduz ao passado. Olívia nos toma pela mão e ordena que cresçamos. Ambos nos embalam, realidade e ternura; fantasia e sonhos possíveis; a crueza objetiva da vida numa demonstração de que é preciso seguir caminhando para fora de nossas cavernas e porões, onde ficarão para sempre guardadas nossas melhores lembranças. Seguir caminhando em direção ao que se é, respirar-se, renovar-se.

Grazie, Bertolucci!
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