sábado, 5 de janeiro de 2013

AMOUR (2012)


O Premiadíssimo AMOUR é um drama íntimo, orquestrado pela direção sempre original de Michel Haneke e estrelado por Jean-Louis Trintignan e Emmanuelle Riva, que interpretam o casal Georges e Anne (além de ter no elenco Isabelle Huppert, que faz a filha do casal).

A partir da história da degeneração corporal que assola a mulher, num casal de velhos que vivem sós em seu apartamento em Paris, Haneke vai nos aprisionando, como espectadores, na sufocante intimidade dos dois, arejada por uma impecável fotografia, que, na mesma toada “endo”, é uma fotografia de interiores, retratando os elementos da história do casal: livros, quadros, obras de arte, um piano e a própria decoração e disposição do apartamento, com portas que vão se trancando definitivamente no decorrer do filme.

É a personificação, a literalização do Tanatos, em Eros.

A música, a despeito de fazer parte ativa do roteiro, uma vez que a mulher fora professora de música (e o filme praticamente começa com a belíssima cena do concerto de um antigo aluno, ao qual o casal de velhos vai), não se insere como elemento constante, tendo pouca aparição real, mas muito pontual, de forma a exprimir a sensação de “picos” da vida, permanecendo apenas dentro de nossos ouvidos, pois o filme, como característico em Haneke, é de um silêncio eloquente.

Emociona, sem se utilizar de recursos musicais que possam manipular nossas emoções.

Aliás, a cena inicial do concerto é posta sob a perspectiva do “eu, concertista”, pois a tomada é a partir do palco para a imensa plateia, onde, no meio de todos, quase indistinguível, se encontra o casal de velhos que protagonizará a história.

É Haneke nos dizendo: “você executará esta peça, você dará o tom de sua emoção a essa história”. E essa é a única cena externa do casal, a única que se passa fora das quatro paredes do apartamento, onde, ao final do concerto, ambos se detêm no hall de entrada, tirando seus casacos, trocando seus sapatos, como a nos convidar para a tragédia intimamente humana que se avizinha.

Nós somos os únicos convidados pelo casal, que, abatido pela dor e pudores relativos ao sofrimento, não querem receber nem a filha, o genro, ou outros visitantes. Vemos a visita do antigo aluno da mulher (o concertista da cena inicial), porque ele chega de surpresa, a nos representar entre o choque e a tristeza que sente ao ver a antiga professora com o lado direito todo paralisado, mas é uma breve visita; ele sai, nós permanecemos ali, incomodamente ali.

Permanecemos, observando impotentes o amor do homem pela mulher, que na sequência sofre outro derrame e tem a maior parte de seu corpo paralisada. Permanecemos, em dúvida, sobre o que fazer com o pedido da mulher de que seu amado lhe abrevie o sofrimento, fato ao qual ele, inicialmente se nega, mesmo que não seja por valores morais ou religiosos, nos parecendo ser, simplesmente, por AMOR.

Antes que a mulher se veja definitivamente acamada, quando ainda pode se levantar da cadeira e dar alguns passos, temos cenas belíssimas, onde o homem, ao apoiá-la e abraça-la para que possa levantar-se, cria a sensação de uma dança, leve, ainda que um tanto trôpega, onde se tem a impressão do ocaso de uma delicada sensualidade entre o casal de octogenários, e a certeza do amor entre eles, que subsiste a qualquer ocaso.

Na maior parte do tempo, o homem cuida pessoalmente da mulher, abrindo mão da presença constante de enfermeiros e até se indispondo com uma, que não dispensara bons tratamentos a mulher.

Assistimos uma história de amor cristalizado, numa fase da vida em que não se tem mais preocupação com a liquidez e a dualidade do amor. Neste particular, não exala praticamente nenhuma dualidade entre o casal: os dois não são dois, são um! A questão da dualidade se concentra mais no pedido dela, em morrer, e na forma como ele lhe nega isso, inicialmente, chegando ao limite de agredi-la com um tapa no rosto, quando ela se nega a engolir a água que ele lhe dá, numa clara tentativa de morrer de sede.

A unidade de ambos faz com que o homem, por amor, ceda aos desejos de isolamento e asfixia da mulher, confinando-nos ao inferno íntimo no qual transcorre o filme, para que nos isolemos e nos asfixiemos um pouco, com eles, dentro daquele apartamento recheado de elementos simbólicos, a fim de que possamos repensar a possibilidade de buscarmos uma porta, encontrarmos uma saída, abrirmos uma janela, pela qual possa entrar uma lufada de ar que nos liberte de nossa aprisionante condição humana, apesar e a despeito do amor.

Ainda que Haneke seja tido como um diretor unidirecional, o que excluiria a possibilidade de ajustamento do espectador, destaco a cena do pombo, que adentra o apartamento onde estamos confinados com o casal.

A certa altura, após termos presenciado o homem subitamente atendendo ao pedido da mulher, colocando um travesseiro sobre seu rosto e libertando-a daquele estado de degeneração em vida, o pombo (que já vimos antes) torna a entrar no apartamento fechado (teria nunca saído dali?).

O homem, em meio a suas dificuldades motoras trazidas pela velhice, tenta capturar o pombo com um xale, certamente da mulher, jogando o xale sobre o pombo como se fosse uma rede para apanhá-lo.

Depois de algumas tentativas, ele finalmente consegue aprisionar o pombo e o vemos levantar-se, com dificuldade, e se sentar numa poltrona, exausto, com o pombo agasalhado entre o xale.

Pelo estado de angústia emocional em que se encontra o homem, tive a sensação de que ele esganaria aquele pombo incômodo entre as mãos (talvez porque nesse estágio do filme, eu estivesse sentindo muita raiva diante do fato de ter estado ali, confinada naquele apartamento presenciando o ocaso daquele casal). Mas, não, ele acaricia amorosamente o pombo, num gesto de transferência do amor pela mulher, morta.

E depois escreve numa carta sobre o pombo, que o libertara, nos libertando assim, também, daquele sufocante confinamento.

Uma crua história de amor. Uma real história de amor. Amor que, em qualquer hipótese, só é amor se liberta.

Michel Haneke é o diretor austríaco de Violência Gratuita, A Professora de Piano,  Caché e A Fita Branca, portanto, só assista se estiver preparado para algo profundamente denso e asfixiante. A bela Isabelle Huppert já declarou que "nos filmes de Haneke não são os atores que sofrem, são os espectadores”.

Com 5 indicações ao Oscar em 2013: melhor filme, melhor direção, melhor filme estrangeiro, melhor atriz (Emmanuelle Riva) e melhor roteiro original, Amour já levou a Palma de ouro em Cannes e os Prêmios do Cinema Europeu (melhor filme, melhor diretor, melhor atriz - Emanuelle Riva e melhor ator - Jean-Louis Trintignan), do Círculo de Críticos de cinema de Nova York (onde também levou os prêmios de melhor diretor e atriz - Emanuelle Riva) e da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles. Ganhou também, o Globo de Ouro, como Melhor Filme estrangeiro.
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