sábado, 11 de janeiro de 2014

O LOBO DE WALL STREET (2014)

O mais perfeito nome para este filme seria, na verdade, “O que terá acontecido com Martin Scorsese?”

Talvez porque a nova invenção do Scorsese seja mesmo dirigir filmes para ganhar prêmios em Hollywood, talvez porque eu tenha entrado para ver o lobo logo após ter saído da sala de cinema da águia Lars Von Trier com sua Nymphomaniac, mas a verdade é que o que vi ali, em O Lobo de Wall Street, foi um filme milimetricamente planejado para ser premiado na academia, nada mais.

O que espantou mesmo é ser um filme de Scorsese.

Olhando bem, não deveria espantar tanto, pois em 2012 Scorsese já trouxera ao mundo “A Invenção de Hugo Cabret”, feito para ganhar prêmios na Academia – e ganhou cinco.

George Clooney fez muito melhor em TUDO PELO PODER (2012), ainda que a temática fosse outra.  

A fábrica de Scorsese já tem no prelo, para 2014, o filme Silence, cuja sinopse é “Século XVII. Dois padres jesuítas viajam até o Japão, onde precisam investigar acusações de perseguição religiosa” - dessa vez sem Di Caprio, e para 2015 o filme de suspense “The Snowman”, cujos atores ainda são desconhecidos.

O Lobo de Wall Street é uma adaptação do livro de “Memórias de Jordan Belfort”. Tá, dói saber que a história é real e que Belfort foi um vigarista financeiro americano que foi investigado pelo FBI até ser preso e entregar todo mundo por uma pena menor.

Mas o pior de tudo é a forma como o filme nos apresenta “O Lobo” em seu envolvimento com drogas, prostitutas e as transações de seu mercado de ações paralelo, num ensandecido culto ao dinheiro, que parece ter como objetivo continuar sendo apreciado após o final do filme, por quem com ele se identifica.

Jordan Belfort é o cara que representa “o guia”, “o pastor”, “o lobo” que conduz as pessoas que estão com ele à ética da prosperidade americana, sem se importar com os meios, desde que o final “ganhar dinheiro” seja alcançado.

Nisto, temos que admitir que Scorsese consegue nos passar bem a sensação de que toda aquela loucura que está ao redor de Jordan é, na verdade, fundada no mesmo princípio em que se assentam algumas igrejas e seitas, assim como se assentou o Estado norte-americano em sua ética protestante que sempre girou ao redor do dinheiro.

O filme é delirante, é certo, Jordan, após ingressar como corretor no mercado de capitais, vai da extrema perda ao ápice da fortuna aproveitando oportunidades paralelas ao mercado oficial sem dar a menor satisfação à Comissão de Valores Mobiliários e se tornando um lobo poderoso, na medida em que também torna ricos os homens que treinou para comandar este mercado.

No mais, é aquela impressão de eu já vi essa luxúria toda em “Cassino” (do mesmo Scorsese) e, ao final, a sensação de que o crime compensa e de que talvez Jordan tenha feito mesmo atos de humanidade ao enriquecer-se e enriquecer pessoas ao seu redor.

Vi um pessoa tirando os óculos e limpando as lágrimas numa cena em que Jordan faz um dramalhão à frente de sua bolsa de valores paralela, a Stratton Oakmont perante as centenas de “corretores” que tinha, com o microfone na mão, dizendo que ajudou uma corretora, que quando chegou para ele estava com o aluguel atrasado e um filho de oito anos pra criar e hoje vestia ternos Armani de três mil dólares e tinha uma Mercedes (amém, irmãos? Amém!).

Eu não chorei, só ri! Aliás, ri muito diante de cenas pastelões do patético Jordan e seu sócio e estranho amigo Donnie Azoff, interpretado pelo excelente Jonah Hillextremamente drogados e caricatos. Aliás, nessa linha comédia besteirol, o filme tem lá o seu mérito.

Di Caprio e Jonah Hill estão muito bem como atores e não me surpreenderia uma indicação para melhor ator e coadjuvante ao Oscar deste ano. Aliás, Di Caprio, como está maduro e bonito e pleno!

Ao final, a sensação é de que Scorsese glorificou mesmo os crimes financeiros de Jordan, absolvendo-o como absolvido devem ser os Estados Unidos da América e como absolvido deve ser (deve?) Scorsese por se preocupar tanto em fazer apenas um filme comercial, quando a gente sabe que o grego pode dar muito mais que isso.

Mais que isso, a certeza de que o filme sublinha um tratamento da mulher como objeto e um culto ao machismo como coisa extremamente natural, com a qual Scorsese não precisaria compactuar, mesmo que quisesse se manter fiel ao livro. Para isso servem os bons diretores.

A falta da catarse aristotélica ao final, tão necessária num filme como este, me soa como algo perigoso para o mundo que absorve o que vê sem criticar.

No mais, mais nada. Só assista se você quiser estar atualizado no dia da premiação do Oscar em março.

Tá, Di Caprio e Jonah Hill valem o filme!
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