sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

NYMPHOMANIAC- VOLUME I

A gente sai do cinema depois de uma almejada sessão do gênio Lars Von Trier, não, espera... A gente não quer sair nunca mais do cinema depois que, subitamente, sobem os créditos avisando que está encerrado o Volume I de Nymphomaniac, mesmo com cortes visíveis e tendo que aguardar a continuidade do filme que, noticia-se, será em maio no Brasil.

Difícil expressar em palavras as impressões causadas pela direção meticulosa, que se faz presente em cada detalhe, na performance dos atores, na luz, no som, nas cores, nos gestos, ahhhhhhhh... Êxtase!

Dividido em capítulos, como já faz Lars há tempos em seus filmes, Nymphomaniac tem dois volumes com oito capítulos: The Compleat AnglerJerome, Mrs. H, Delirium, The Little Organ School, The Eastern and Western Church (The Silent Duck) e The Gun.

Joe, (Charlotte Gainsbourg) é encontrada toda machucada e semi-inconsciente, deitada na rua, pelo velho Seligman (Stellan Skarsgard) que quer chamar uma ambulância, mas, diante da resistência de Joe, a leva para sua própria casa e lhe dispensa tratamento acolhedor.

Durante todo o Volume I, Joe está deitada, recuperando-se numa cama de solteiro, num cômodo da casa de Seligman, a ela dispensado, mas ali é, claramente, a representação de um divã, onde o velho ouve atentamente sua história desde a infância, repleta de culpas, onde ela se confessa uma ninfomaníaca desde criança.

Seligman interfere exatamente nos limites de um analista, sem perplexidade diante das histórias picantes relatadas por Joe, inclusive sua relação de desejo consumado por seu pai, interpretado lindamente por Christian Slater, que é o homem fraco da vez no Volume I de Nymphomaniac (em todos os filmes de Lars, há um personagem masculino fraco).

Diante dessa relação incestuosa, a mãe de Joe é descrita como uma mulher que “vira as costas e joga paciência”.

Enquanto Joe, na pele de Charlote Gainsbourg, conta as histórias para o velho Seligman, as cenas são revividas na interpretação da modelo Stacy Martin, a Joe adolescente.

Uma sucessão de personagens masculinos, ao melhor estilo Lars Von Trier, desfila diante de nossos olhos, a começar pelo moço que a deflora a seu pedido, passando pelos inúmeros amantes que a ninfeta viciada em sexo recebe em casa, com destaque para um que, acreditando no logro da jovem decide deixar mulher e filhos e se mudar para a casa de Joe, o que é tudo que ela menos quer, mas tinha usado isto como pretexto para descarta-lo.

Neste particular, impagável a cena em que o homem chega no apartamento de Joe com a mala, e, logo atrás dele estão os dois filhos e a esposa, vivida por Uma Thurman, que vieram juntos para entrega-lo ao “novo lar”.

Discurso impecável da esposa ferida, tentando fazer parecer natural sua “perda” e praticando atos de alienação parental diante dos filhos, histérica, a cena de humor negro na qual Uma Thurman está perfeita, rende uma amargurada vontade de rir, diante de toda aquela angústia que o filme vai nos despertando.

As questões da insaciável Joe vão sendo colocadas sob signos comparativos pelo velho Seligman, o que desperta ainda mais a sensação de uma sessão de terapia. Suas histórias sexuais são comparadas à pesca da truta, ao Número de Ouro de Fibonacci e à polifonia de Bach.

Dentro da narrativa de Joe, algo nos afasta das analogias matemáticas propostas por Seligman: é o tal “ingrediente secreto” do sexo, que aponta para o amor, na figura recorrente de Jerôme (Shia Labouef), o personagem colocado por Joe nas mais distintas situações fantasiosas (fantasiosas?), o “cara da mobilete” que a desvirgina friamente e que mais tarde aparece com outras roupagens, deixando o velho, e a nós todos, incrédulos sobre a veracidade de sua existência na história contada.

O que nos atinge como uma bofetada em Nymphomaniac ao seu final é a impossibilidade de amar, apesar do desejo.

Eu não sinto nada”, confessa Joe ao velho, após narrar a morte do pai, na qual a personagem chora por sua sexualidade através de uma cena que somente Lars Von Trier poderia idealizar, onde Joe se descreve “molhada” ao ver o pai morto na cama de hospital, que nos é mostrado por entre suas pernas abertas e de uma delas escorre lentamente uma  lágrima.

Nem um riso jocoso no cinema durante todo o filme. Quem não suporta sai da sala em silêncio.

Sobem os créditos e você quer ficar ali até a última letra, mesmo diante do expediente “cenas dos próximos capítulos” que macula levemente o filme após o final do primeiro volume.

Agora só nos resta esperar por maio, entre a aflição e a falta de ares que te convoca a pensar sobre o gozo, a morte como única fusão possível, o amor, o desejo e o sentir como algo impossível. 

Sem Wagner, desta vez a trilha é hardcore, com destaque para a música  "Fuhre Michdo grupo heavy metal alemão Rammstein, que te sacode como um despertador para o filme: 



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