domingo, 2 de fevereiro de 2014

THE BROKEN CIRCLE BREAKDOWN (2013)

The Broken Circle Breakdown (O Círculo Quebrado) é o filme belga, dirigido por Felix Van Groeningen, que concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014.

Este é somente o quinto trabalho de Felix Van Groeningen, de 36 anos, e o filme já ganhou muitas premiações na Europa.

É um filme forte e denso, que fala sobre a vida e a morte de forma intensa e crua, porém bela.

Johan Heldenbergh vive Didier, um cantor ateu country e sua história de amor com Elise, interpretada por Veerle Baetens, que também é cantora. A interpretação de ambos é simplesmente bárbara e arrebatadora!

Na linha natural da vida, ambos se apaixonam, se unem e têm uma filha. A criança, vivida pela menina Nell Cattrysse, completa o trio de atores magníficos que torna o filme ainda mais significativo pela capacidade que têm, juntos, de nos transportar para as dores da existência e nossas questões humanas mais cruciais.

O próprio Johan Heldenbergh escreveu a peça na qual o filme se baseou.

É a história de Didier e Elise, o originalíssimo casal, ele um vaqueiro que toca banjo num quinteto, ela uma tatuadora, que após se unir a ele passa a se dedicar à interpretação de música country no mesmo grupo musical.

Elise engravida acidentalmente e a vida segue seu curso até que de repente o casal se confronta com o luto: Maybelle, a filha que tiveram está com leucemia aos seis anos de idade.

O círculo da vida está quebrado. Como quebrar o círculo da morte?

O modo como Van Groeningen trabalha com os mecanismos da raiva e da dor é simplesmente perfeito! Aqui a morte vai chegando, mansa, e, ainda que pareça nos dar trégua em algum momento, ela está ali, implacável, sob a exímia regência de Van Groeningen.

Elise tem crenças, mas Didier está certo de que a morte termina com tudo.

Elise tem seus sonhos tatuados por todo o corpo e pergunta a Didier, quando se conhecem, se ele não tem nada na vida que valeria colocar em seu corpo. Ele diz que sim, mas não precisa tatuar...

Neste diálogo, uma das coisas que ele confessa amar é a América, devaneando sobre o fato de ser um lugar onde as pessoas podem recomeçar suas vidas quando quiserem.

Mais tarde, após a morte da filha, num dado momento em que Didier vê Bush na televisão dizendo que vetou as pesquisas com células tronco por questões éticas “relativas ao Criador”, então seu sonho americano se desmorona e vemos um Didier proferindo o seguinte discurso em estado de crescente indignação:

Durante meses ficamos rodeados de células estaminais e tivemos a sensação de que a ciência médica não estava indo longe o suficiente. Que tenha sido posto um freio. É um sentimento que você não consegue explicar e seu filho morre e então você ouve um bastardo como esse que tem retardado tudo durante anos por motivos religiosos”.

Elise então lhe interrompe para dizer: “Didier, isso é a América! Aqui é permitido, mas lá eles ainda não chegaram a esse grau de evolução”.

Didier, crescendo em dor e inconformismo, repete a pergunta: “Por que esses idiotas vêm retardando tudo durante anos?”

E segue, numa crescente raiva: “Mas o que lhes dá o direito de fazer isso? Eles se autodenominam ‘pró vida’... A tecnologia deles para matar pessoas não conhece limites, mas quando se trata da tecnologia para curar pessoas é outra história. Tudo porque os embriões são cultivados fora do casamento. Embriões do tamanho de uma cabeça de alfinete! Canalha hipócrita! Pró vida uma ova! Bando de fundamentalistas extremistas, enfiem sua cruz no rabo ao lado de seu cérebro. Maldição! O mundo inteiro está obcecado com religião. O mundo inteiro ficou louco”.

Apesar da profunda verdade inserida nas palavras de Didier, ele só está buscando alguém a quem culpar pela morte da filha e é nesta toada que o filme se desenrola; Elise tenta culpar Didier que tenta culpar a América, mas ambos estão, na verdade, o tempo todo lidando com as próprias culpas.

E essa dinâmica é realizada com muito talento por Van Groeningen.

O filme emociona, e muito, ainda que não haja manipulações emocionais.

Se peca em algo é no excesso de músicas do quinteto de Didier, onde Elise também é solista, mas as músicas são ótimas e a performance musical do grupo, bem como a voz suave de Veerle Baetens, que interpreta Elise são deliciosas.


A cena final fica pra sempre gravada no coração, mas eu não vou contar, porque já tem gente bastante reclamando desse negócio de eu sempre contar o filme inteiro. Assista.
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