sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

THE BUTLER (O MORDOMO DA CASA BRANCA) - 2013

Não consigo compreender porque O Mordomo da Casa Branca ficou fora da disputa pelo Oscar sendo um filme completamente americano, como é.

Inspirado na história verídica de Eugene Allen, o mordomo que trabalhou na Casa Branca durante 34 anos (entre 1952 e 1986) e que no começo do filme é um garoto negro que vê seu pai escravo ser assassinado na fazenda de algodão após o estupro de sua mãe pelo senhor de escravos, o filme é uma ode americana aos direitos civis.

Oprah Winfrey (A Cor Púrpura) está perfeita no papel de Gloria, a esposa de Eugene, que no filme recebe o nome de Cecil Gaines (vivido por Forest Whitaker, e merecia uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz).

O filme tem ainda, em papeis secundários, Vanessa Redgrave como a matriarca da fazenda de algodão, Robin Williams como Eisenhower, John Cusack como Richard Nixon, Jane Fonda como Nancy Reagan, além de Cuba Gooding Jr., Terrence Howard, Lenny Kravitz e a cantora Mariah Carey.

O diretor Lee Daniels foi fartamente criticado por ter feito um dramalhão, com trilha sonora manipuladora e absurdos como sugerir que conversas tidas entre o mordomo e alguns presidentes americanos possam ter influenciado decisões destes.

Entretanto, The Butler me parece mais libertador e construtivo do que 12Anos de Escravidão que, até agora não entendi porque, recebeu 09 indicações ao Oscar.

Explico: em The Butler temos um paradoxal comportamento entre o Mordomo e seu filho Louis (David Oyelowo). O pai, após o assassinato de seu pai na infância, fora levado para dentro da casa e treinado para servir aos brancos sem ser notado.

Mais tarde, como mordomo da Casa Branca, fora advertido de que não poderia ter preferências políticas “não se admite política na Casa Branca!”.  É, portanto, um negro passivo, não resistente às questões raciais que flamejam em seu país à época dos fatos.

Mesmo assim, pacificamente, anualmente se dirige ao gestor dos mordomos na Casa Branca e repete o aviso de que os negros precisam receber como os brancos pelo mesmo trabalho que desenvolvem ali e ter algumas chances de progredir, ainda que saiba que a resposta sempre será algo como “ponha-se no seu lugar”.

Pois bem, o filme recebe críticas ferozes por sugerir que algumas conversas entre presidentes americanos e o mordomo poderiam ter influenciado seus discursos em dados momentos, e eu pergunto: por que não?

A “passividade” do mordomo mais se assemelha a não-resistência proposta por Gandhi do que a submissão do personagem escravizado em 12 Anos de escravidão.

É certo que há um grande conflito entre o mordomo e seu filho Louis, que vai por um caminho de extremo ativismo racial, militando nas colunas de Martin Luther King e Malcon X, sendo constantemente aprisionado e espancado, mas sem desistir de sua luta, jamais se rendendo a imposição de não-resistência do pai.

Mas ao final, a despeito de todo o mega aparato utilizado por Lee Daniels para descrever este longo e crucial período da história norte americana, e apesar de seu excesso de didatismo, o filme traz a identificação da imensa importância dos dois tipos de luta: a aquela que se dá de modo intensamente ativo e a que se dá através da não resistência, mostrando o quanto ambas têm papel fundamental na transformação das coisas.

Em 12 Anos de Escravidão, ao contrário, fica na boca um amargo sabor de submissão e mais nada.
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